Dia de quarentena n.º ?

Já perdi a conta.
Perdi a conta aos dias que estou em casa.

Estou a trabalhar a partir de casa desde o dia 10 de março. 
Eu e Joca mudámos de casa há mais de um mês. 
Não temos saído de casa, para além do essencial. Compras. Só para ir ao supermercado ou levar o lixo. Fazemos compras à semana. Trazemos o essencial. Não estamos a armazenar nada. Há quem diga que somos doidos. Há quem diga que estamos a fazer o correto. Eu acho que devo fazer aquilo que a minha consciência me sugere. E não acho que seja essencial armazenar comida, se somos jovens, não temos filhos. Enfim. 
Não vamos à nossa casa, à nossa cidade desde... Pois... Já nem sei. Mas já passaram muitos dias. Não temos visto a nossa família. Ninguém. Só um ou outro. Ou as pessoas que encontramos no supermercado. 

Não vou mentir. Tem custado horrores ficar em casa. Gosto da rua. Gosto de apanhar o ar fresco da manhã. Tenho uma varanda, sim, mas não é a mesma coisa. Não gosto de rotinas. E em quarentena os dias parecem quase todos iguais. 
Depois penso...
Será que me devo queixar? Por favor. Claro que não. 
Não estou na linha da frente. Por isso só tenho que cumprir as medidas de segurança. Por muito que goste de passear, ou ir à minha cidade. 

Em breve vão levantar o estado de emergência. Só se fala disso nos últimos dias na comunicação social e nas redes sociais.
Prevejo dias cinzentos... Todos estamos na ânsia de sair. E se todos o fizermos ao mesmo tempo... Não poderá correr bem. 
O estado de emergência será levantado, mas temos que ser igualmente cuidadosos. 
Esta é a minha maneira de pensar e de ver este mundo tão diferente. 

Nunca pensei viver um tempo assim. Nunca pensei ter uma história assim para contar aos meus netos. Mas que história. Como lhes vamos explicar? Como se vai explicar a alguém que não viveu tudo isto, o que se está a passar? Ou melhor... Como é que eu vou explicar o que se está a passar se, felizmente, tenho estado em casa? O que ouvimos na comunicação social não chega. Só quem está na linha da frente consegue pintar um cenário idêntico no futuro. De nós, só será uma história, o que ouvimos. Não vimos, felizmente. 

Tenho visto muitas séries. Acho que também já perdi a conta. Vi de tudo. Peaky Blinders, Mindhunter, Tiger King, La Casa de Papel, Sunderland, When They See Us, Don't F**k with Cats. 
Vale a pena continuar a lista?

Criei uma rotina. Acordo sempre à mesma hora. Tento estabelecer horários, para além do tele-trabalho. Junto à tese. Está perto do fim, assim espero. Acrescento tempo para séries. E os dias não passam de ser uma repetição do dia anterior. 

Se estou cansada de fazer o mesmo? Estou. Mas vou continuar. Mesmo quando levantarem o estado de emergência. A vida vale mais que qualquer rotina.

Não vou rever o texto. Não vou alterar uma vírgula. É assim mesmo que vai para o diário.



Tenho saudades de ver o mar. Vou deixar aqui uma fotografia do mar. Não tem a melhor qualidade de imagem. Mas não deixa de ser uma bonita fotografia.




Inês.

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