Os olhares dos outros.

Segunda-feira a seguir à Páscoa. 

Fui passear. Aproveitar o último dia de férias. "Apanhar" um pouco de sol. Espairecer. 

Fui até ao Fórum de Aveiro para ver as montras. Algo que não faço muitas vezes, mas nesse dia queria mesmo ir ver roupa e procurar pelas novas tendências. 

Parecia um ótimo plano para passear e aproveitar a tarde... Mas conseguiram estragar-me completamente o dia.

Logo na primeira loja que entrei, os alarmes dispararam. Até aí nada de muito extraordinário. A loja estava cheia, muitas pessoas de férias. Quando sai, o caso repetiu-se. Entrei e voltei a sair. E o alarme voltou a tocar. Os empregados de loja não fizeram caso e eu avancei para outra loja. 

Na loja logo ao lado, o caso repetiu-se. Entrei e o alarme disparou. Saí e o alarme disparou. E eu voltei a fazer exatamente a mesma coisa que tinha feito antes. Segui para a loja seguinte. 

Entrei em quase todas as lojas do Fórum. Em todas as lojas que entrei o caso repetiu-se. Até que, numa dessas lojas, um dos empregados de loja, pediu calmamente e bastante atrapalhado para me dirigir à caixa para desmagnetizar o alarme da minha mala e eu apenas pedi que me ajudasse, uma vez que o caso se estava a repetir em todas as lojas. Assim o fiz. Fui até à caixa. Explicaram-me que por vezes os alarmes internos das nossas carteiras voltam a ativar-se e, por esse motivo, os alarmes disparam. Agradeci imenso a ajuda e dirigi-me à saída.

Quando estava a sair... Sim... Os alarmes voltaram a disparar. Voltou o mesmo empregado, que ficou ainda mais atrapalhado. Disse que me podia abrir a mala. Perguntou apenas se tinha também as carteiras de moedas mais pequenas e pediu-me para eu ir até à caixa novamente. Fui novamente à caixa e entreguei a minha carteira mais pequena. A empregada perguntou se podia abrir a minha mala para verificar se tinha algum alarme dentro da mala.

Esse era o problema da minha mala, tinha um alarme escondido. Bastou cortar o alarme e o problema ficou resolvido. A minha indignação não foi com os empregados de loja, na realidade todos eles foram bastante simpáticos e não me acusaram de nada.

O problema e a minha indignação foi com as pessoas, os outros clientes como eu... Sim. Esse foi o problema. Cada vez que eu entrava ou saía de uma loja e quando os alarmes disparavam, as pessoas ficavam paradas a olhar para mim, simplesmente a julgar-me. Principalmente quando eu voltava atrás e esperava por alguém.



A maldade das pessoas é tão grande que, numa dessas lojas, enquanto eu saía, estavam a sair com mais duas senhoras de idade. Quando os alarmes dispararam, as senhoras ficaram bastante ofendidas e a gritar "NÃO SOU EU", e ficavam a olhar e a apontar para mim... Sim, isto é verídico. Triste, mas verídico. A recordar-me do sucedido parece mesmo uma história...

Eu nunca respondi a nenhuma provocação, nem a nenhum olhar julgador das outras pessoas. Esperava apenas por um dos empregados para continuar com o meu passeio. 

Os olhos das pessoas também falam. E vi em quase todas as pessoas que estavam à minha volta, o julgamento por um alarme que apitava quando eu saía... Sei que não devia importar-me com aquilo que os outros dizem, ou dos olhares que as outras pessoas faziam. Não sou de ligar à opinião das pessoas que eu não conheço, nem muito menos de me importar com o que dizem. Mas é certo que nesse dia fiquei bastante desiludida com o povo que temos. Não o posso generalizar, é verdade. Mas grande parte das pessoas, naquele dia, foram julgadoras, de uma miúda que só estava a passear, a ver as montras como qualquer uma delas. 

O melhor que possa retirar disto é o facto de apesar de grande parte das pessoas me ter julgado nesse dia, isso não me define enquanto pessoa, não demonstrou aquilo que sou. Apenas demonstrou aquilo que essas pessoas são. Tristes. Hipócritas. Julgadoras.

Felizmente, não podemos generalizar o caso. Felizmente, ainda existem pessoas boas no mundo. Felizmente, ainda existem segundas oportunidades. 

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